José Cursino Raposo Moreira.* Um dos mais importantes avanços da civilização humana se liga ao aparecimento e desenvolvimento da moeda e do sistema monetário. Tal fato se reporta para além da economia, constituindo-se como um dos fundamentos dos modernos estados nacionais. Hoje até existe uma moeda continental, o Euro, obra de intricada engenharia financeira, política e cultural. Paralelamente à moeda, surgiu o sistema bancário, que se transformaria, com o passar dos tempos, em um dos mais sofisticados e importantes setores de atividade econômica. Este se ramificou no mercado de capitais e de títulos e valores, com capacidade tanto para alavancar o progresso econômico, quanto para se tornar fonte de crises e instabilidades, das quais os atuais problemas globais constituem significativa confirmação. A consequência mais importante do aparecimento do dinheiro liga-se à aceleração e facilitação das trocas de mercadorias entre as pessoas e países que viabilizou, permitindo o crescimento igualmente da produção e da produtividade mundiais, lançando as bases remotas da hoje chamada “globalização”. No campo normativo da Economia, como resultado necessário da evolução do padrão monetário, surgiu a política monetária e do crédito, responsável pelos grandes avanços que os povos experimentaram ao longo da história, desenvolvendo-se nesse processo instituições, práticas, estudos e pesquisas acadêmicas responsáveis pelo elevado nível de monetização da maioria dos países contemporaneamente. Grande número de Prêmios Nobel de Economia tem sido atribuído a trabalhos deste campo, confirmando a sua importância no cotidiano das sociedades e prestígio científico. No presente, uma das principais características do âmbito monetário da economia refere-se à aplicação neste de inovações tecnológicas oportunizadas pela tecnologia da informação, através do comércio eletrônico. Dentre estas inovações, os cartões de crédito e, posteriormente, os de débito se destacam. O “dinheiro de plástico” como estes são conhecidos se generaliza no dia a dia, de sorte que se estima existirem hoje no Brasil algo como 600 milhões de cartões, enquanto que o volume de transações realizadas com eles naquele mesmo ano teria sido equivalente a 20% do PIB. Portanto, não deixa de ser surpreendente o resultado de pesquisa realizada por consultoria econômica que acaba de ser divulgada sobre os meios de pagamento empregados pelos brasileiros nas suas compras no comércio. Segundo esse trabalho, não obstante todo o progresso do emprego dos cartões nas transações nos últimos anos, em 2010 os pagamentos em dinheiro apareciam no elevado percentual de 59% e os de cartões, no de 36%. Desse modo, o “dinheiro vivo” ainda representa o grande “concorrente” dos cartões como meio de pagamentos, apesar das vantagens e comodidades deste. Outro ponto importante que a pesquisa mostrou foi o virtual desparecimento do cheque como instrumento de transação, aparecendo com apenas 2% de emprego nas transações no mesmo ano de 2010, abaixo de “Outras Formas”, que figuram com 3%. Esta constatação, contudo, não significa falta de sintonia do Brasil com a tendência ao uso do cartão como instrumento de compras. Isso pode ser confirmado por outros dados da mesma pesquisa. Assim, por exemplo, vê-se lá que as vendas pagas com cartão passaram de 16,5% em janeiro de 2004 para 29,8% em dezembro de 2011. Já no confronto pagamentos efetuados com cheques e com cartões, a situação é francamente pró-cartões, já que em 2010 enquanto estes responderam por 85,7% das transações, os cheques se responsabilizaram por 14,3%. Veja-se que este é um cenário completamente diferente do que existia no ano 2000, quando os cheques pagaram 71,4% das compras e os cartões, apenas 28,6%. Por outro lado, é esperado ainda um crescimento da circulação do dinheiro vivo no Brasil, até alcançar os níveis internacionais em termos de percentagem do PIB. Este que, até o advento do Real, era 0,8% do PIB, hoje se encontra em 4% e o Banco Central espera que chegue a 6% nos próximos 10 anos, patamar semelhante ao dos Estados Unidos, e aí se estabilize. Eis, então, aí o saudável convívio entre o moderno e o tradicional também no campo monetário, tendo em vista as vantagens e limitações de cada um desses meios de pagamento. ============= *Economista e Conselheiro do CORECON- Ma. cursinom@elo.com.br